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La Cruz del Sur



O chileno Patricio Guzmán precisou de apenas 80 minutos para narrar em um documentário o sincretismo religioso na América Latina, o contato das crenças andinas com a Igreja Católica, os mitos pré-colombianos, a chegada do homem branco à região sul do continente, o candomblé no Brasil e a Teologia da Libertação. Lançado em 1992, ‘La Cruz del Sur’ fala de como cultura é política e política pode ser religião. Fincar a ponte do diálogo e se abrir aos costumes de outros povos é ser civilizado, entende e explica logo no início um sacerdote maia, contrastando com as cenas de subjugação cristã. Conhecido como um dos maiores documentaristas latino-americanos, Patricio é sutil nas escolhas. Falando em Deus e ouvindo quem versa sobre a Igreja à serviço do Estado e de uma classe dominante, o cineasta opta por encerrar uma sequência com uma cena na Bolsa de Valores. A balbúrdia é simbólica: Deus mesmo é o dinheiro. ‘La Cruz del Sur’, assim, é conduzido com destreza. Tem espaço até para o papa João Paulo II (que, segundo relatos, ‘fala em nosso favor, mas não luta do nosso lado’ — aliás, uma relevante demarcação). No entanto, alguns depoimentos conseguem carregar a alma de todos os registros de Patricio. Um dos sacerdotes maias (ou ‘ministrante laico’, pois o catolicismo não permite padres indígenas casados — ao contrário dos costumes locais) confessa: nós estamos perdidos sobre o que é a cultura andina e o que é a religião andina. A cruz, aqui, representa o caminho que o sol faz no céu. A cobra, ao contrário, não dá face ao Diabo: é sagrada, sempre em contato com o chão. Na América Latina da exploração (impossível não lembrar do marxista Mariátegui numa das falas), o pecado veio antes da língua estrangeira e os deuses nas pedras, resistentes e perenes, foram dessacralizados diante dos santos frágeis de pau. Patricio Guzmán, com um pé firme na etnografia e a câmera acesa, nos diz que não é possível falar de cultura, política e religião sem estabelecer devidamente os seus elos. Excelente documentário para tempos em que o debate se restringe ao falho questionamento de se a arte é ou não é.







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